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domingo, 26 de agosto de 2018

Além

Ou eu só conheço gente extraordinária ou a aproximação da morte dá-lhes uma sabedoria e dignidade que nos espanta a todos. Choro lágrimas de saudade antecipada, de tristeza por ver acabar aos poucos, e depressa demais, uma vida tão cheia de vida. A morte faz parte intrínseca da vida e não é só quando ela se aproxima, é desde sempre. Não há fim, a morte nem sempre vem lá no fim. Vem de repente, vem cedo, vem antes do tempo. No fundo está sempre lá, aqui. E esta gente extraordinária deve ver isso , deve-se lhes ser dada a sabedoria de perceber para além. Para além do que nós ainda não conseguimos ver e sentir.

sábado, 19 de abril de 2014

Morte

Queria morrer assim de repente, como se me apagasse.
Depois do dia acabar, de mansinho, sem me despedir.
Como se não fosse para sempre. Só um bocadinho.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

E é assim...


Aquela frase que ouvi algumas vezes perante alguém moribundo: "Não quero ir vê-lo/a assim, porque quero ficar com a imagem de antes, forte, saudável...” 
E que antes eu simplesmente estranhava, vejo agora que é duma cobardia, egoísmo e crueldade atroz. Sei que muitas pessoas não fazem por mal e o medo da realidade que a todos assiste - a morte - os faz esconder por detrás duma cobardia que não conseguem admitir, nem a si próprios.  Só tenho pena e me culpo, por descuido e ignorância, das visitas que não fiz, da mão que não dei, do olhar, da caricia, do abraço, do consolo, de simplesmente ter lá estado.  Olhando de frente a pessoa, que é a mesma de antes, para que se reflicta nela como um espelho, não o horror da morte mas o amor pela sua vida e por ela, que ainda ali está. Constato com tristeza que só é preciso pormo-nos no lugar do outro. E dar-lhe a liberdade de despir-se de vaidades e ser, naquela hora terrível, ela própria. Como quando nascemos, morrermos. Simplesmente.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mundos paralelos...


Não me consigo habituar a esta nova fase da vida em que cada vez morrem mais pessoas. As minhas pessoas.
As nossas memorias são as pessoas, nos pensamentos e sonhos estão as pessoas que se cruzaram ou estão na nossa vida.
E depois há aquelas que representam “coisas”. Valores, sentimentos, raizes, coisas da nossa vida, são referencias. E quando morrem, para além da saudade, da falta, parece que um bocado de nós morre com elas. Bocados de que somos feitos porque nos ajudaram a ser como somos.
E quando as nossas pessoas começam a morrer, o nosso mundo começa a partir-se e a ficar mais vazio. E a vida passa a ter outro sentido. O mundo dos espiritos, ou lá o que for que achamos que vai ser depois, começa a viver mais perto de nós, porque é lá que estão as nossas pessoas.
E então a vida só é real com duas dimensões, onde estamos e onde eles estão. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mais um Anjo no Céu

"Se você me ama, não chore. Se você conhecesse o mistério insondável do céu onde me encontro... Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e vejo nesses horizontes sem fim e nesta luz que tudo alcança e penetra, você jamais choraria por mim.
Estou agora absorvido pelo encanto de Deus, pelas suas expressões de infinita beleza. Em confronto com esta nova vida, as coisas do tempo passado são pequenas e insignificantes. Conservo ainda todo o meu afeto por vocês e uma ternura que jamais lhes pude em verdade revelar. Amamo-nos ternamente em vida, mas tudo era então muito fugaz e limitado. Vivo na serena expectativa de sua chegada, um dia...entre nós.
Pense em mim assim. Nas suas lutas, pense nesta maravilhosa morada onde não existe a morte e onde, juntos, viveremos no enlevo mais puro e mais intenso, junto à fonte inesgotável da alegria e do amor.
Se você verdadeiramente me ama, não chore mais por mim."

Mensagem de Santo Agostinho

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Impermanência total

Tenho uma amiga muito querida a morrer.
De há uns dias para cá, eu e a minha vida , temos ali uma parte escura agarrada a nós, que só se ilumina quando a vejo, lhe agarro a mão e sinto a paz que ela sempre me transmitiu. Ela conseguiu. Está preparada e tenta, preparar-nos a nós , família, amigas. Mas é que isto da morte é muito complicado!
Já tenho saudades dela, já tenho pena de mim pela falta que ela me vai fazer. Deus põe estes anjos no nosso caminho e eu devia estar grata não é? E estou, mas porque é que a leva de volta já? São pessoas como ela que fazem falta cá!
No fundo, a morrer estamos todos desde o momento em que nascemos, mas não "vêmos" isso, só nestas alturas, de total impermanência.