sábado, 19 de Abril de 2014

Morte

Queria morrer assim de repente, como se me apagasse.
Depois do dia acabar, de mansinho, sem me despedir.
Como se não fosse para sempre. Só um bocadinho.

segunda-feira, 24 de Março de 2014

Passados


Como me senti há muitos anos atrás no alentejo profundo, na Mina de Aparis, senti agora no Douro, nesta paisagem agreste, talhada e sofrida.

Peço licença para entrar, fazer parte, participar do enlevo, simplesmente. É uma parte de nós que é e não é. Pertencemos e somos estranhos. De uma qualquer coisa, de um qualquer passado que tanto é nosso como nos transcede e nos ultrapassa.

O que é que nos faz sentir o passado, as raízes? Quem passou por aqui igual a nós, sentindo como nós. O que é que partilhamos, todos? Ao logo da vida, de gerações. O medo da morte, do futuro que é a morte, que é um fim qualquer? Que não sabemos o que é. Por muita fé, por muito acreditar, nunca podemos ter a certeza do que há para lá.
Mas por muito que duvide, que questione, sinto aquelas presenças de outrora. Marcaram. Será que marcamos também?


quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Ás vezes sou assim



Escrevo sempre sobre certezas, ou quase,  pensamentos que me chegam como epifanias. Coisas que aprendo, apreendo, que começo a entender. Mas normalmente o meu pensamento é uma enorme interrogação. O que é que eu fiz? O que é que eu faço? Para que é que eu sirvo?

Sempre ansiei por fazer algo realmente útil. Ajudar pessoas. Ir para África. Fazer a diferença em algo. Algo que me transcenda. E só vejo os anos passarem  e eu sempre à espera que me surja a ideia. Aquela ideia que vai mudar tudo! Que me apareça aquela pessoa que me leve ao meu caminho. Á minha missão nesta vida! E os anos passam e nada acontece, pelo menos de extraordinário.
Mas será que “acontecer” é mesmo isto? Ir acontecendo, ir fazendo... Que o extraordinário é um caminho e não um acontecimento?

Tenho vivido os últimos anos dedicada aos meus filhos, a que nada lhes falte. A dar-lhes e a mostrar-lhes todo o amor que sinto realmente por eles. Num frenesim irreal, a correr de um lado para o outro para que eles possam crescer e fazer as escolhas certas, para que tenham acesso a tudo o que lhes pode eventualmente ser útil, realiza-los no futuro, serem pessoas integras e, principalmente, felizes. O meu amor por eles é tão grande que mesmo assim nada disto ás vezes me parece que chega. Continuo a achar que não faço o suficiente, que falta sempre alguma coisa. Esta insatisfação, não por querer mais mas por querer ser mais. Parece que estou cá em baixo, e me estico e estendo os braços mas não consigo chegar lá acima, onde deveria estar.

quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Medo # 4


O medo é um monstro que nós desenhamos, colorimos, como numa banda desenhada, damos vida. E depois ele controla-nos.

A minha mente é diabólica, cria cenários horrendos, faz folhetins, e eu não quero, mas ela toma conta do meu pensamento. E não parece, porque tento não ceder, nas minhas atitudes, a essa história macabra que vai dentro da minha cabeça, e verbalizar nem pensar! Por isso pergunto-me: quantos de vós aí, amigos meus, conhecidos... estarão a passar pelo mesmo? A sentir estes medos indizíveis, a consumir-se por dentro e continuar neste teatro que é a vida "normal"?

terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

É Natal

Venho aqui desejar-te Boas Festas, meu amor, meus amores, meus anjos. Para ti, para ti e para ti....porque não consigo dizer de outra forma, porque não posso telefonar, nem mandar mensagens, nem ir bater á porta e abraçar, e apetecia-me tanto... E gritar aos sete ventos "Tenho tantas saudades!" E isto da net é o mais parecido com o infinito e com o céu. As mensagens, os desejos, pairam neste mundo virtual como estrelas.
Estejas onde estiveres quero que saibas que te desejo um feliz Natal, que nesta altura do ano ainda tenho mais saudades, que penso em ti todos os dias e nesta altura mais vezes ao dia.

segunda-feira, 12 de Agosto de 2013

E é assim...


Aquela frase que ouvi algumas vezes perante alguém moribundo: "Não quero ir vê-lo/a assim, porque quero ficar com a imagem de antes, forte, saudável...” 
E que antes eu simplesmente estranhava, vejo agora que é duma cobardia, egoísmo e crueldade atroz. Sei que muitas pessoas não fazem por mal e o medo da realidade que a todos assiste - a morte - os faz esconder por detrás duma cobardia que não conseguem admitir, nem a si próprios.  Só tenho pena e me culpo, por descuido e ignorância, das visitas que não fiz, da mão que não dei, do olhar, da caricia, do abraço, do consolo, de simplesmente ter lá estado.  Olhando de frente a pessoa, que é a mesma de antes, para que se reflicta nela como um espelho, não o horror da morte mas o amor pela sua vida e por ela, que ainda ali está. Constato com tristeza que só é preciso pormo-nos no lugar do outro. E dar-lhe a liberdade de despir-se de vaidades e ser, naquela hora terrível, ela própria. Como quando nascemos, morrermos. Simplesmente.